O Super-Herói na Era Hipermoderna.

por Felipe Locca.

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O Herói.

A figura do herói se manifesta nas mais diversas culturas humanas, para não dizer todas. Sendo a figura do herói tão comum em diferentes contextos socioculturais, é razoável indagar que tal figura serve a algum papel de significação na estruturação cultural de comunidades humanas.

O conceito do herói toma formas diferentes levando-se em conta o contexto em questão, porém em todos os casos certos aspectos são comuns, em geral, o herói é aquele que buscando fazer o bem(nem sempre o bem universal, como veremos a seguir), supera desafios de proporções épicas, de forma excepcional, demonstrando extrema coragem, ingenuidade e força, seja ela física ou emocional. O bem em questão, em muitos casos se refere ao bem de um determinado grupo em detrimento a outros e não necessariamente a um suposto “bem maior”. Heróis podem lutar pelo seu povo, sua classe, sua família ou por si próprio. O desafio e a forma excepcional pela qual ele é superado, em geral, reflete diretamente ao contexto de surgimento de um herói, seu local de origem e tempo histórico, porém sem abandonar os pilares presentes em qualquer outro caso. Por causa disso heróis costumam servir como a representação individualizada de um povo, podendo ser a personificação de um determinado Volksgeist.

Esta lógica foi popularizada nos estudos históricos pelo escocês Thomas Carlyle no séc. XIX, Carlyle propunha que a história é guiada pelo impacto de “grandes homens’, indivíduos influentes que por meio de sua inteligência, carisma ou sabedoria política, utilizavam de seu poder de maneira a causar algum impacto histórico decisivo. A ideia do “grande homem” foi atribuída a diversas figuras históricas do final do séc. XVIII e inicio do XX, como George Washington para as colônias inglesas na América, Napoleão para os franceses e Lord Nelson para os Ingleses. Nos três casos observamos indivíduos que possuíam as características acima citadas e que por meio delas tiveram sem duvida alguma algum impacto histórico importante, além disso, tais figuras serviam de determinada forma como uma representação personificada de suas respectivas nações.  A partir do surgimento de novas perspectivas dos estudos históricos, como materialismo histórico e dialético Marxista, a teoria dos “grandes homens” foi aos poucos abandonada, talvez tendo como sua exemplificação final a figura de Adolf Hitler. Porém a lógica que rege esta teoria foi de certa forma absorvida e re-significada na cultura moderna e posterior.

O Super – Herói.

Um dos exemplos mais pontuais da incorporação da teoria os grandes homens pela Industria Cultural é o Capitão América, um dos primeiros Super-Heróis a surgirem na era de ouro dos quadrinhos Norte-Americanos. Em sua narrativa, o Capitão América é uma das, se não a melhor personificação do “Grande Homem”. Steve Rogers é um jovem pobre, filho de imigrantes Irlandeses, que vive em Manhattan, onde perdeu os pais ainda na infância, magro e desajeitado Steve tem o sonho de trabalhar com ilustração de revistas em quadrinhos. Com a ascensão do Terceiro Reich na Alemanha, Steve é conquistado pela ideia de se alistar no Exército Americano e defender seu país. Como podemos observar, Steve Rogers é um exemplo perfeito do homem moderno, pobre e filho de imigrantes, com dificuldades para se ajustar socialmente e realizar seus desejos ele é conquistado pela maquina de significação que é o Estado.

Apoiado na noção de pátria, dever e honra, o Estado Norte-Americano conseguiu conquistar milhares de jovens a abandonar sua terra, família, amigos e amores, para então cruzar um oceano e arriscar suas vidas no Pacífico e na Europa, Steve é apenas mais um.  Aqui observamos como o Estado consegue exercer influencia perante a sociedade de massa por meio de técnicas que viriam a ser incorporadas pela publicidade. No final de 1941 o porto militar Norte-Americano de Pearl Harbour foi atacado por uma esquadra Japonesa, a perda material e humana desta tragédia foi a “bala mágica” perfeita para que o governo de Roosevelt conseguisse conquistar o apoio popular necessário para se aventurar num conflito com o Eixo. Mais do que tudo, o fato de que as unidades de Inteligência do Exército Americano já sabiam do plano de ataque Japonês e nada fizeram para o evitar, demonstra o como se sabia da necessidade do mesmo para convencer o povo americano. Isso se repete na história recente, com exemplos como a “ameaça comunista”, que justificou as intervenções na Coréia e no Vietnam em o 1950 e 1965 respectivamente e também o 11 de Setembro, que justificou a invasão do Iraque em 2003.

O Hiper-Herói.

Ao longo dos anos 1940 a indústria das HQs plantou sua semente para se tornar um dos pilares da exportação cultural Norte-Americana, talvez o mais importante depois da indústria cinematográfica e fonográfica.

Ela se desenvolveu paralelamente com a derrocada da modernidade, posta em prova pela tragédia da Segunda Guerra Mundial e pelas suas heranças, que só vieram a ser aparentemente superadas com a queda do muro de Berlim, em 1989. A era moderna deu lugar a uma fase que se extende até hoje, onde os valores modernos são questionados em vista ao resultado de suas exacerbações nas décadas de 1930 e 1940 e valores rejeitados pela modernidade são novamente incorporados e combinados, Gilles Lipovetsky cunha o termo Hiper-Modernidade para descrever o que se desenvolve à partir disso. Para Gilles, é vago o conceito de Pós-Moderno, pois este implica na superação e abandono dos valores modernos, ao invés disso, o que se observa é uma intensificação de determinados destes valores que ao invés de rejeitados são re-incorporados, porém agora subordinados à lógica resultante da industrialização galopante, da individualização e mercantilização da sociedade.

Desenvolve-se neste contexto a indústria de quadrinhos Norte-Americana, seus produtos são perfeitos exemplos da hiper-modernidade, isso é claro já nas publicações dos anos quarenta aos anos setenta, porém torna-se realmente presente à partir dos anos oitenta. As editoras percebem neste momento uma queda em vendas e apreciação, isso se deve provavelmente ao fator de que o público inicialmente cativado chegara agora à idade adulta, e os moldes de narrativa e personagem já concretizados pela primeira fase dos quadrinhos agora se esgotava e não mais conquistava novos leitores. Até este momento as narrativas possuíam pouca complexidade, seus personagens eram rasos e com pouca capacidade de gerar empatia, o Super-Herói até ai era simplesmente isso, um Super-Herói.

Nos anos oitenta porém, uma nova geração de escritores, como Frank Miller, trazem uma nova cara para os quadrinhos, passam a questionar os valores já enraizados no gênero, os misturando com novos valores agora incorporados e as vezes até os invertendo. Agora os Super-Heróis ganharam mais traços de personalidade, como conflitos pessoais, valores emocionais profundos e às vezes deturpados, os personagens foram humanizados e as tramas se tornaram mais complexas. Observamos aqui um exemplo perfeito do que Gilles propõe ao discorrer sobre a Era-Hipermoderna. Isso serviu perfeitamente para re-ativar as vendas, pois, além de conquistar novos públicos com novos valores de criação, voltaram a conquistar públicos mais velhos que agora conseguiam encontrar empatia com seus personagens de infância.

É a partir dai que começa a se desenvolver uma nova face da indústria cultural, a sub-cultura que hoje conhecemos pelo termo “nerd” tem suas raízes na geração que leu a nova fase dos quadrinhos nos ano oitenta, mesmo período onde outros produtos cinematográficos que hoje sustentam a cultura pop surgiram. Esta esfera da industria cultural possuí em sua coluna vertebral os valores da Hipermodernidade, noções velhas antes consideradas superadas são novamente incorporados lado a lado a novos valores, e a individualização recai tanto ao consumidor quanto ao produto.

Esta industria hoje é responsável por uma circulação econômica gigantesca, ela é a industria do exagero, do hiper, todas as características e valores que a permeiam são levados a seus extremos. As produções cinematográficas são as mais caras e mais intensas, cada um destes filmes tem como dever conquistar a atenção de consumidores cercados por uma saturação de informação, portanto carregam em si cargas enormes de drama, ação e humor, em cada uma delas se exige a novidade, o inesperado, o surpreendente. Um das práticas mais comuns não só nas adaptações cinematográficas de HQs mas nas produções Hollywoodianas da atualidade em geral é a intertextualidade, percebeu-se que a citação e a referência a outras obras tanto de cinema quando de outras mídias que já se tornaram icônicas, produz automaticamente um efeito de empatia e satisfação no consumidor, portanto isso vem cada vez mais sendo aplicado. Um exemplo claro desta prática é o filme Watchman de 2009, dirigido por Zack Snyder, aqui diversos planos de câmera foram diretamente adaptados da obra impressa, tanto na composição, iluminação e paleta de cores. Ao mesmo tempo que, quando bem utilizada, a citação pode servir de maneira benéfica à obra em questão, ajudando a elevar sua qualidade narrativa, a maneira como obras da atualidade se apoiam totalmente e às vezes exclusivamente a esta práxis apenas reflete como o cinema do blockbuster é completamente subordinado à lógica mercantil, mantendo poucos traços artísticos e de função social que não seja a manutenção da passividade.

A sub-cultura “nerd” hoje é uma das manifestações mais intensas da hipermodernidade, pois não é sustentada por um conjunto de valores específico ou permanente, tem valores fluídos, dependentes de contextos e tempos específicos. Ela tem o poder de se posicionar numa alta escala de importância na vida de seus membros, tomando a forma do conjunto de significados e valores que guiam decisões e opiniões, além de fornecer a noção de pertencimento que tanto desejamos. Porém acima de tudo ela é uma industria, cada um de seus produtos e elementos de significação são acima de tudo mercadorias, nada nesta sub-cultura surge sem ter propósito mercantil, ela é mais uma das das diferentes manifestações culturais humanas, porém, resultante da Hipermodernidade esta cultura é em si uma mercadoria.

Enquanto o herói surge do Volksgeist de um povo, seja por meio de narrativas orais, lendas e mitos contados de geração para geração, com a função de fortalecer os laços de significação de determinada comunidade, ou da criatividade de um autor que desenvolve um personagem utilizando como estrutura os valores do herói. O Super- Herói surge nos últimos suspiros da modernidade, são um produto da indústria cultural, já sob a sombra do capital em estágio avançado de desenvolvimento, tais personagens surgem como mercadoria e com toda a gama de valores ao entorno da lógica mercantil. Cada traço de personalidade e narrativa do Super-Herói é cirurgicamente desenvolvido para a venda, mais que isso, é projetado para conquistar a esfera emocional do consumidor, criando assim um laço intenso, quase que familiar com o fã, que em alguns casos tem o personagem como um fator importante de seu desenvolvimento pessoal.

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