Os pequenos segredos de Aquarius

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Durante o mês de maio deste ano ocorreu o 69º Festival de Cannes, um dos mais influentes festivais de cinema do mundo. Na mesma época, no Brasil, ocorria o processo de impeachment que resultou no afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Aquarius, dirigido pelo renomado crítico brasileiro Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Sonia Braga, foi exibido e aclamado em Cannes, levando consigo a quarta colocação da crítica especializada da Palma de Ouro, principal competição do festival.

Kleber, que já havia dirigido Som ao Redor, além de dezenas de curtas-metragens, é um comentador político ativo nas redes sociais e defensor do governo petista vigente na época. O diretor aproveitou a visibilidade da imprensa internacional e, juntamente com a equipe e o elenco do filme, promoveu um protesto no festival francês, levantando placas com dizeres de “Um golpe ocorreu no Brasil”, “Resistiremos”, e “Brasil não é mais uma democracia”. Em resposta, Dilma agradeceu o apoio e exaltou o talento do Brasil em Cannes.

É inegável que Aquarius é um grande filme, considerado pela maioria da crítica – inclusive internacional – o melhor brasileiro do ano, levando 100 mil pessoas aos cinemas apenas em sua semana de estreia. Entretanto, a comissão do Ministério da Cultura escolheu Pequeno Segredo como representante brasileiro no Oscar. O segundo longa-metragem de David Schurmann – que havia dirigido o terror Desaparecidos em 2012, com uma péssima avaliação da crítica – estreou no último dia 22 e contou com apenas 135 ingressos vendidos nos primeiros 4 dias.

Diversos filmes brasileiros como Boi Neon, de Gabriel Mascaro, Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert e Big Jato, de Cláudio Assis retiraram seus filmes da competição pela vaga do Oscar em prol de uma nominação de Aquarius, que se tornou uma espécie de mártir cinematográfico de um grupo que não reconhece o processo de impeachment. O cinema e a política estreitaram seus laços como há décadas não acontecia no Brasil.

Esta seria a segunda chance do pernambucano tentar a vaga. O primeiro filme de Kleber Mendonça Filho, O Som ao Redor, chegou às finais da escolha para o Oscar, ficando entre os 10 últimos em 2014. Entretanto, restam as esperanças de que Sonia Braga seja indicada ao prêmio de Melhor Atriz no Oscar. A atriz já foi indicada 3 vezes ao Globo de Ouro e foi aclamada em Cannes: a brasileira perdeu o troféu para Jaclyn Jose, de Ma’ Rosa, feito considerado a maior injustiça do festival no ano.

Há quem diga que não houve parcialidade na escolha do filme a representar o país no Oscar. Entretanto, não há como negar que Aquarius é um importante filme na conjuntura político-social contemporânea, e que assisti-lo e entende-lo é intrínseco para o entendimento da situação do país, assim como a situação do cinema nacional, cada vez melhor representado por uma nova geração de cineastas que, assim como os finados Glauber Rocha e Eduardo Coutinho, unem engajamento político com eficiência técnica.

por Lucas Veiga Pellegrino, 41423102.

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