“opinião é como uma parte específica do corpo…”

Felipe A. Lemo

Na era da liquidez, do mundo fluído e das relações vazias, o Brasil vive também, como se tudo isso não bastasse, uma crise política, econômica, mas, principalmente, ética. Interessante porém, essa crise não é nem de longe a mais preocupante. Outras tantas já foram numericamente muito mais expressivas, os 11% de inflação, ao ano, de hoje, parecem pouco expressivos se comparados aos 83%, ao mês (!), durante o último mês do governo Sarney; o desemprego, hoje flutuando entre 14% e 12%, já se viu na casa dos 26%, período em que 1/4 da força de trabalho brasileira estava desempregada, não há uma novidade absoluta na nossa crise atual.

Porém, argumenta-se que, a crise que o Brasil enfrenta nesse ano de 2016, tem uma única novidade: essa crise tem cunho, majoritariamente, moral. Isso não pode ser atribuído única e exclusivamente a uma mídia excludente, que há muito liberou-se da última fagulha de imparcialidade que ainda retinha; ou à ações de uma polícia truculenta que, dia sim, dia não, reaparece nessa mesma mídia com um novo escândalo. Nunca nos vimos em tamanha desesperança e falta de crença no futuro.

O brasileiro, porém, sempre teve um entendimento deturpado do que seria ética e em que momentos ela se aplicaria. É então que, tradicionalmente, levanta-se o famigerado e já extensamente explorado argumento do jeitinho brasileiro. Àquele que nos leva a acelerar no sinal amarelo, sonegar imposto, falsificar carteirinha de estudante e tantos outros.

Acompanha essa discussão o, também, exaustivamente narrado discurso sobre “como podemos exigir que nossos representantes no governo federal e estadual respeitem as leis e diretrizes quando nós mesmo não às respeitamos no decorrer do dia?!”. Ou ainda o argumento que justifica o uso do nosso jeitinho, de maneira a resistir à impostos absurdos, bem como com regras e leis que não concordamos. Afinal, é no Brasil que tudo não funciona, porque se fosse na Europa funcionaria, porque nos museus da gringa não tem fila.

Por que, então, eu devo ficar preso no engarrafamento, enquanto, ao meu lado, outros passam pelo acostamento; por que devo chegar na aula no horário, quando nem o professor se dá ao trabalho de fazer o mesmo, por que ser honesto se os outros não o são?

A ética kantiana nos explica: não importa o que os outros façam, se todos fazem errado, continua errado. Mesmo que todos o façam, não significa que você também pode fazê-lo. Esses opostos não tem base numérica. A decisão constante “de fazer o bem” é atingida neste momento brasileiro de 2016, a elite está absolutamente despreocupada com o que acontece com o coletivo, ela se preocupa com seu futuro, não se importariam de colocar fogo na pátria, se conseguissem manter sua pose e seu posto.

Quem discorre sobre tudo isso é Leandro Karnal, em sua palestra sobre o assunto. Muito mais habilidoso que eu, sua palestra é marcada por momentos engraçados e divertidos. Karnal é, porém, por vezes tido como um diplomata, habilidoso nas discussões, ele sempre encontra uma forma, sensata e coesa, de se manter em cima do muro. É por isso que o admiro. Em tempos de enorme difusão de informação e, sobretudo, opiniões, é sempre bom lembrar que, como diz Karnal aos 18:15min, opinião é como uma parte específica do corpo, pode se dar, é nosso direito, nada nos impede que, sentindo necessidade nos a demos, mas não precisa dar todo dia e tem que perguntar antes.

 

Ouso, ainda, indicar uma leitura do mesmo autor, sobre a movimentação política referente ao Escola Sem Partido:       O historiador como juiz          

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