Ética em anúncio publicitário

Maria Paula O. P.

Publicada pelo site G1, da Globo, a notícia já inicia com um breve lembrete: “AVISO: A IMAGEM É FORTE”.
Sem títuloasdasda

No mês de setembro de 2015, a foto do menino sírio que fora encontrado morto em praia turca despertou olhares do mundo todo e gerou grande discussão à respeito da gravidade da crise migratória. O corpo de Alan Kurdi apareceu em Bodrum, depois que duas embarcações com imigrantes naufragaram.

O pai do menino, Abdullah, fugira com a mulher, Rehan, e outro filho, Galip, de 5 anos, para tentar chegar ao Canadá, onde vivem parentes da família. Isso mesmo depois autoridades do país norte-americano terem negado um pedido de asilo. Da família, apenas Abdullah sobreviveu à tentativa de travessia de barco entre a Turquia e a Grécia, em que, além dos familiares, morreram pelo menos outras nove pessoas.

Ilustrações divulgadas nas redes sociais homenagearam o garoto.

aylani1aylani2banksyaylan10

O jornal britânico “Independent” questionou “Se estas imagens com poder extraordinário de uma criança síria morta levada a uma praia não mudarem as atitudes da Europa com relação aos refugiados, o que mudará?”. Já o também britânico The Guardian disse que as fotos levaram para as casas das pessoas “todo o horror da tragédia humana que vem acontecendo no litoral da Europa”.

O americano Washington Post definiu a fotografia como “o mais trágico símbolo da crise de refugiados do Mediterrâneo”.

Meses se passaram desde a tragédia, e uma campanha publicitária se apropriou da foto do menino sírio.

Poster-swimming-school-470964

Peça publicitária produzida pela escola de natação Academia Fitflex, da cidade de Esteio.

 

O caso virou polêmica nas redes sociais. Internautas afirmavam: “O anúncio de vcs só mostra o quanto a humanidade está perdida”. E não parou por aí, além dos meios de comunicação brasileiros que relataram o caso, jornal britânico Daily Star também noticiou o fato, caracterizando o anúncio como ultrajante.

Sem título

É importante discutir a ausência de ética nesse caso. Parto do princípio de que a “ética tem uma tentativa de ser universal”, como afirma o Mario Sérgio Cortella. E sem dúvida, a reprovação pela utilização da foto do garoto ultrapassou fronteiras municipais, regionais e estatais.

Um anúncio publicitário tem como objetivo vender. Vender uma ideia, um serviço, um produto. No caso da academia, o que estava sendo vendido era a aula de natação. O recurso usado fora o apelo à tragédia, ignorando a real dimensão que a fotografia trazia. Um garoto sírio, que se tornara símbolo de uma imensa crise em escala mundial, responsável pela morte de milhares de pessoas do Oriente Médio e da África que tentam chegar à Europa para escapar de guerras, de perseguições e da pobreza. Houve ausência de respeito, o que é altamente combatido em meios de comunicações éticos.

A professora de Ética na Comunicação, Simone Rosa, afirma que o anúncio fere princípios básicos da publicidade e da propaganda: “Isso é a valorização da tragédia e do negativo”. Veja vídeo no link abaixo:
http://tvuol.uol.com.br/video/dono-de-academia-se-arrepende-de-propaganda-com-menino-sirio-morto-04020C1C3260C4C15326/

A escola de natação retirou o anúncio de circulação e publicou uma nota:

“A FitFlex vem a público esclarecer fatos sobre material que está circulando na internet, extraído da edição de 03/03/16, do Jornal Destaque de nossa cidade. É importante inicialmente salientar o respeito da empresa por seus clientes e familiares, em especial por todas as crianças que já aprenderam a nadar em nossas piscinas.

No ano de 2011 aumentamos nossos esforços em divulgar e trabalhar com a conscientização do grave problema de afogamentos, que é uma das principais causas de morte acidental entre crianças.

Reconhecimento deste esforço nos levou ao registro no livro dos recordes em conjunto com a Maior Aula de Natação do Mundo, onde contribuímos com o segundo maior número de participantes, ficando atrás do SeaWorld’s Waterpark de Orlando, EUA. O que demostra nosso compromisso com a seriedade e respeito a nossos clientes.

No final de fevereiro, após a trágica perda de uma criança ocorrida com uma família próxima da academia, morta por afogamento, decidimos fazer algo para chamar a atenção para este problema, foi então que se publicou esse anúncio.

Tentou-se mostrar que não só em uma guerra se perdem crianças, que ao nosso lado uma criança pode morrer acidentalmente afogada. No Brasil, a segunda causa de morte acidental de crianças é o afogamento, porém pouco se fala deste grave problema. A cada quatro dias uma criança morre afogada em nosso país.

No caso da polêmica que o anúncio criou, em especial no meio da comunicação social, nossa intenção também era chamar a atenção para o grave e real problema de afogamentos. A repercussão foi maior que nossas fronteiras municipais.

Temos plena consciência que esse anúncio viralizou negativamente, onde praticamente nenhum comentário se fez sobre o problema de afogamento infantil.

Fizemos um material para alertar sobre o problema e erramos, mas ao menos fizemos. Pedimos que aqueles que podem fazer algo, que divulguem formas de preservar vidas em suas cidades.

Em nenhum momento foi a intenção faltar com o respeito a quem quer que seja, tanto que ao recebermos o primeiro feedback negativo, retiramos a foto do anúncio.

Respeitosamente,
Academia FitFlex.”

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s