Oi, posso rir de você?

Lucca Seixas de Oliveira, 1 de dezembro de 2015

Estava lendo o Nobre Alcorão. Desisti por falta de paciência. Estava lendo o Nobre Alcorão e me considero um agnóstico, portanto, um kuffar. Ainda por cima sou canhoto e seguro livros com a mão esquerda. Um duplo pecador, Allahu akhbar! Fora os fatos de só conseguir ler ouvindo alguma música e achar nasheeds extremamente enfadonhos. Comecei a ler ouvindo uma banda alemã de goregrind chamada Cock and Ball Torture. Estava tudo errado e eu já pressentia minha estrada para o jaheem sendo construída. Como diria Lenin: que fazer?

Minha primeira opção foi talvez a mais óbvia: procurar na internet modos de me desculpar com Allah pelo pecado cometido. Encontrei muito pouca coisa. A segunda foi procurar auxílio de um amigo seguidor do Islam que, apesar de também pecar consideravelmente, entende bem os preceitos repassados a nós pelo profeta Muhammad. De nada adiantou; a resposta demorava demais. Enquanto minha mente se revirava em meio aos meus arrependimentos e súplicas, uma ideia abençoou meu coração: continuar lendo com a mão direita e implorar perdão mais tarde, após a leitura do Nobre Alcorão.

Quando meu amigo respondeu era tarde demais: a leitura do novo livro de poemas de Diego Moraes me pareceu mais interessante, juntamente com o interesse pelas novas capas do semanário Charlie Hebdo, que vem fazendo minha alegria desde os atentados do início do ano. Passei a acompanhar o site do veículo na base do pouco que entendo de Francês e encontrei um novo perdão para meus pecados. O escárnio.

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Luz, cartunista da equipe que escapou dos atentados segurando a capa da edição seguinte ao atentado.

Em janeiro, no auge da campanha Je Suis Charlie, surgiram na internet uma série de críticas ao estilo ácido e impetuoso apresentado pelo Hebdo. Um dos maiores quadrinistas da atualidade, Joe Sacco, criticou o semanário por apresentar em suas charges um conteúdo descriminatório ao povo árabe e muçulmano. Ao mesmo tempo representantes da New Left mundial tacharam o jornal de “islamofóbico” e racista.

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Charb segurando uma das edições do Charlie Hebdo.

Stéphane Charbonnier, mais conhecido como Charb, foi diretor de publicação e chargista do Charlie Hebdo durante seis anos. Antes de ser assassinado no atentado, Charb entregou um livro intitulado Letter to the Islamophobia Tricksters Who Play into the Hands of Racists (aproximadamente traduzido como Carta para os malandros da islamofobia que jogam o jogo dos racistas). Publicado póstumamente em abril desse ano, Charb deixa um recado indigesto para os militantes anti-preconceito contra muçulmanos: islamofobia não existe. O que existe é o racismo. Essa indigestão muito lembra um grupo inglês de comédia – sempre ela, vítima de tantas represálias – que também polemizou muito nos anos setenta e oitenta: Monty Python.

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O grupo Monty Python nas gravações de A Vida de Brian.

O filme A Vida de Brian, dirigido pelo membro do grupo Terry Jones, escrito e estrelado por todos os pythonianos, conseguiu causar irritação semelhante ao Hebdo nos seguidores do cristianismo e, principalmente, do judaísmo. Na comédia, Brian (Graham Chapman) é um vizinho de Cristo que cresceu a sombra do filho de Deus. Frustrado com a vida monótona de comerciante e irado com o autoritarismo do Império Romano, decide agir. Entra para um dos grupos de ação direta contra seus algozes e acaba sendo confundido com o Messias cristão. Ao final da obra, a cena clássica onde é crucificado junto de vários ladrões e todos cantam a canção Always look on the bright side of life.

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Icônica cena da crucificação em A Vida de Brian.

Além do modo ácido de se fazer humor, uma curiosidade: trocando as religiões, o semanário se transformaria em um personagem icônico do Python. Outro dos trechos mais comentados de A Vida de Brian é o apedrejamento. Já que na tradição judaica o nome de Deus é impronunciável, um idoso é condenado a morte por elogiar a comida de sua esposa com a sentença: “Esse peixe está digno de Jeová!” Toda a cidade se reúne para ver a morte do blasfemador, que enlouquece e começa a pronunciar o nome do altíssimo aleatoriamente. Aos poucos, grande parte da platéia segue o prisioneiro e inicia-se uma série de apedrejamentos. O Charlie, nesse caso, seria o idoso, condenado por criar uma imagem do profeta Maomé. E os apedrejadores, além dos grupos jihadistas, são todos que criticam o apedrejado por transgredir dogmas de mais de mil e quatrocentos anos.

Sim, mil e quatrocentos anos. No caso do Python, dois mil e quinze anos para o cristianismo e cinco mil setecentos e setenta e seis anos para o judaísmo.

Apesar de tudo, não acredito na comédia por si só. O humor, como base para a convivência humana, não deve ser usado apenas para rebaixar algo ou alguém. O Charlie Hebdo satiriza as religiões abraâmicas para denunciar seu atraso perante a evolução intelectual do ser humano. O Python o mesmo. Reitero o que disse no parágrafo anterior. Todas as religiões abraâmicas possuem mais de mil anos. Elas e seus dogmas. O impacto que causam nas relações sociais é desproporcional à obsolescência de suas ideias. E os avanços tecnológicos produzidos por religiosos (não a religião, como uns insistem) são válidos, mas não escondem a Inquisição Espanhola, o genocídio palestino  para a fomentação do Estado de Israel e a venda de garotas kuffar para Imãs satisfazerem seus impulsos sexuais.

Antissemita, anticristo, islamofóbico. Os atentados ao Charlie provaram que mexer com religiosos que não estão quietos pode não ser um bom negócio. Mas repito a citação: que fazer? Em tempos de violência que perduram desde o nascimento do primeiro Homo erectus, devemos, como diz Brian na cruz, sempre olhar para o lado brilhante da vida.  E terminar de ler o Nobre Alcorão.  

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