Eis que chega a roda viva e carrega a saudade pra lá

 

            Na última quinta-feira, dia 26 de novembro, o programa Roda Viva, da TV Cultura, recebeu em seus estúdios o escritor e jornalista Audálio Dantas para falar sobre os 40 anos da morte do colega Vladimir Herzog. O programa irá ao ar na segunda-feira, dia 15 de dezembro.

            Na bancada de entrevistadores, somente jornalistas “sobreviventes” da ditadura militar. Além do âncora Augusto Nunes, estavam presentes Juca Kfouri, Marcelo Barão, Ricardo Kotscho, Sergio Gomes e Marco Antonio Rocha.

            A primeira rodada de perguntas foi constituída basicamente por uma série de homenagens ao entrevistado, por sua brilhante carreira no jornalismo e também pela maneira louvável com que presidiu o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo à época do assassinato de Herzog.

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O jornalista Audálio Dantas durante a entrevista

            Os entrevistadores aproveitaram também para confidenciar onde cada um deles estava quando recebeu a notícia da morte de Herzog, chamado carinhosamente de Vlado pelos amigos. Marco Antonio Rocha contou que estava escondido dos militares na casa da sogra, no interior de São Paulo, pois já havia sido ameaçado pelos militares e sabia que a sua prisão estava em vias de acontecer. Sergio Gomes, no entanto, não teve a mesma sorte. Quando soube da morte do colega, ele encontrava-se preso no DOI-Codi, em São Paulo.

            Naquela fatídica noite de sábado, 25 de outubro de 1975, Audálio Dantas estava em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, onde havia ministrado uma palestra.

            O jornalista falou ao Roda Viva que, naquele fim de semana, o Sindicato imaginava que o momento era de calmaria. Isto porque, ao participar da Conferência Internacional da Sociedade Interamericana de Imprensa, poucos dias antes, ele levou a lista de jornalistas presos pela ditadura e usou o viva voz para denunciá-las. O Sindicato acreditava que, ao tornar públicas aquelas denúncias, conseguiria inibir a repressão.

            Ledo engano. Ao saber da morte do colega e amigo, o medo tomou conta de Dantas. Entretanto, em função de seu cargo à frente da entidade que deveria tomar as rédeas da situação, não se deixou abater. Procurou de todas as formas uma maneira de retornar a São Paulo e conseguiu o último assento em um avião Bandeirante, que partiria de Presidente Prudente no domingo pela manhã.

             Ao chegar a São Paulo, com o auxílio do jornalista e amigo Fernando Pacheco Jordão, redigiu uma nota em nome do Sindicato em que responsabilizava os militares pela morte de Herzog, além de relatar as prisões ilegais realizadas pela ditadura. Por fim, convidava a população para o enterro de Vlado, contrariando os órgãos de repressão, que queriam manter o episódio na discrição.

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O Editor-chefe Carlos Taquari conversa com Augusto Nunes

             Em um dos momentos mais significativos da entrevista, Juca Kfouri perguntou a Audálio qual foi o papel do juiz Márcio José de Moraes no episódio da morte do jornalista. Audálio se emocionou e relatou uma história que considera “edificante”.

             Até o caso Herzog, o juiz não tinha nenhuma experiência com militância política. Entretanto, ao começar a ler sobre o caso, notou que algo estranho tinha acontecido. Em razão disso, o juiz compareceu ao ato ecumênico realizado na Catedral da Sé, no dia 31 de outubro de 1975, em memória de Vladimir Herzog.

            Três anos depois, em 27 de outubro de 1978, em plena vigência do Ato Institucional n° 5, Márcio José de Moraes condenou a União pela prisão, tortura e morte do jornalista.

            O entrevistado contou que o assassinato de Vlado desempenhou papel fundamental para a queda gradual da censura e que o ressurgimento do movimento sindical, em 1978, também foi fomentado pela morte do jornalista.

            Além disso, Audálio afirmou que hoje, apesar de não vivermos mais em uma ditadura militar, a censura se faz dentro dos jornais e que, por isso, a qualidade dos veículos de comunicação caiu muito nos últimos 40 anos.

               O clima nos estúdios da TV Cultura no fim de tarde daquela quinta-feira era diferente. Não era um dia de gravação normal para o âncora e os entrevistadores do Roda Viva. O clima era de reencontro de antigos amigos, mas não de uma turma normal. Era um encontro de sobreviventes de anos de medo e tensão e que, com saudade, se reuniram para relembrar um amigo que não teve a mesma sorte que eles.          

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A redação da TV Cultura

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