A voz do feminismo e da hashtag “meuamigosecreto” com base na música Clarisse.

Em 1997 a preocupação voltada às mulheres já existia quando a Banda Legião Urbana lançou, no CD póstumo Uma Outra Estação, Clarisse, música que fala sobre a violência sexual sofrida por muitas meninas e mulheres, que são então representadas por uma garota de 14 anos que leva o mesmo nome da canção. Em seus 10’33’’ podemos ouvir relatos de auto mutilação, morte adolescente, o medo de voltar para casa que as mulheres sentem e até mesmo sobre “homens que se esfregam nojentos”.

Em 2015 nada parece ter mudado. Regredimos na questão segurança e pouco nos importa a apreensão que causa uma rua escura. Idade não é documento, tamanho não é documento e nenhuma reclamação parecefazer efeito. A voz das mulheres é abafada pelo machismo que grita nos ouvidos da sociedade. Se não nascemos mulheres, e sim nos tornamos mulheres, como diz Simone de Beauvoir, por que somos criadas achando que é normal termos que chegar a nossas casas antes das 23h sendo que os garotos nem ao menos tem hora para voltar? Por que nos calamos quando somos alisadas por estarmos com um vestido curto? A nossa voz é a nossa vez, e estamos cada vez melhores nisto.IMG-20151201-WA0045

A hashtag #meuamigosecreto tomou conta das redes sociais na terça feira, 24 de novembro, como uma campanha. Mulheres começaram então relatar atitudes, posturas e discursos machistas de pessoas próximas, mantendo o sigilo do nome, como se fosse a brincadeira de fim de ano, onde temos que a adivinhar quem é a pessoa apenas pela descrição que outra pessoa faz. Esta forma de exposição do que cada mulher passou dentro de casa, na rua, com amigos, estranhos, conhecidos, no ambiente de trabalho e entre tantos outros lugares foi como gritar em um megafone o nojo, repulsa, medo, desespero, fobias que todas essas mulheres sentem/sentiram.
Passamos de passivas a ativas, ativistas. Orgulho de ser mulher e falar o que nos engasga. Num passado recente, a mídia cortaria tudo que envolvesse a revolta contra a sociedade perfeita dos homens que foi criada para vivermos, mas hoje, visto a repercussão que o assunto tem, os sites e redes sociais estão se adequando ao movimento feminista.

Uma das mulheres que passou a ter mais voz com esse movimento foi uma amiga, Maria, de 19 anos. Para ela, homem que assedia mulher na rua não tem respeito nem pela própria mãe, e conta que decidiu apoiar a causa feminista quando foi puxada por um “cara” na rua, alegando que queria sair com ela porque ela é linda. As páginas do Facebook ajudaram a aumentar seu conhecimento com a causa e com o passar do tempo e das passeatas, conheceu outras mulheres que precisavam do movimento feminista para acabar com o medo e o silêncio que permanecia em suas vidas.

A banalidade do machismo e da sociedade patriarcal já era comum quando a música diz que:

“A falta de esperança e o tormento de saber que nada é justo e pouco é certo, de que estamos destruindo o futuro e a maldade anda sempre aqui por perto. A violência e a injustiça que existe contra todas as meninas e mulheres, um mundo onde a verdade é o avesso e a alegria já não tem mais endereço”.

Talvez Renato Russo tenha pensado que isso mudaria no outro século, talvez tenha imaginado um mundo cor-de-rosa e diferente, quando na verdade estar sozinha em uma festa é sinônimo de “querer um macho”, e a desculpa “eu tenho namorado” pra não ficar com alguém é mais aceita do que “não quero, obrigada”.

Não, nenhuma mulher é feminista por “falta de rola”, nenhuma mulher é feminista porque acha divertido. O movimento feminista não é diversão e não deve ser calado. Batom vermelho não é de puta, e se for, somos putas com orgulho. Nosso corpo não diz respeito a mais ninguém e nossa voz é nosso escudo. Gritamos para nos defender, gritamos para alertar, gritamos porque não vamos aceitar a manipulação da mídia e do governo. “Tentar ser forte a todo e cada amanhecer.”

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